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OPINIÃO

O menino e o passarinho

POSTADO EM 08/07/2016 16:45:00 POR: Paulo Noel

Arrumou o material de caça: uma atiradeira com pedrinhas, uma sacola de pano e foi ao encontro dos amigos. Como sempre, estava sem camisa, descalço e apenas vestindo um calção feito de saco de açúcar pela mãe.

 

O destino era um lugar lindo: com campo verdinho, cercado por árvores nativas e frutíferas como cajueiros e ingá. Não queria chegar atrasado ao encontro com os dois amigos que o esperavam para mais uma aventura: caminhar pela mata, até chegar ao Brejo do Capim como era conhecida uma propriedade que gostava de visitar. Pelo caminho iam conversando.


 — Já estamos próximo da pedra que rola — comentou Marin com dois amigos Pedro Balisa e Salim. 

 — Você acredita nesta história? — Indagou Pedro Balisa.


 — Não é essa a questão. Mas, conta a minha avó uma lenda antiga de que, depois da meia noite, a pedra que rola se desloca para o outro lado da propriedade, por cerca de três quilômetros para só voltar antes do amanhecer. 


 — Será? — Perguntava Salim com ceticismo.

— Verdade ou não, diz a lenda que as pedras rolam e se encontram. E quando chega este momento fazem muito barulho, tipo trovoada. É de dar medo — diz Marim.


Os raios solares daquela manhã de verão de 1967 obrigava os andarilhos a procurarem abrigo nas árvores com copas baixas tipo nativa que encontravam pelo caminho. Numa dessas paradas, Narim resolveu disparar com sua seta no primeiro passarinho que surgiu nos galhos de uma árvore bem baixinha. Não tinha noção do que fazia. Mas, àquela manhã de janeiro ficaria marcada para sempre em sua vida.


 — Viu o que você fez? O passarinho está caído ao chão sem o topetezinho. A pedra atingiu de raspão sua cabeça. Com certeza morreu. 

Assustado, Marim olhava o pássaro em silencio: “não queria fazer isso”. Logo um outro passarinho voou até o chão onde estava seu “amigo” como se tentando ressuscitá-lo com seu bico. 


O vento nordeste soprava forte e os meninos decidiram seguir em frente com Narim abatido caminhando já sem a seta que havia abandonado. Mas os colegas tentavam fazê-lo esquecer.

 

Logo começou a dar fome e os três amigos começaram a procurar por frutas nas árvores. Era época da colheita de caju e naquela mata haviam muitos cajueiros. Depois de saborearem a fruta, caminharam um pouco mais e finalmente chegaram ao Brejo do Capim. Ali permaneceram por mais um período, e, antes da chegada da noite, retornaram para suas casas.


Até chegar em casa, como num filme, Narim ia revendo em seu pensamento as imagens do passarinho.  “Como fui capaz de fazer tamanha maldade. Agora, vou orientar meus amiguinhos que abandonem de vez suas setas. Que sirva de exemplo meu testemunho de arrependimento”.


 

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